Agricultores, entidades e governo discutem ações de segurança alimentar na
BA
Raquel Salama*
Cerca de 260 agricultores e agricultoras familiares de 22 territórios do Estado
da Bahia participaram, nesta quarta-feira (23/4), do Seminário de Segurança
Alimentar e Nutricional. O evento acontece até sexta-feira (25/4), no Anfiteatro
II da Universidade Estadual de Feira de Santana. Direito à reforma agrária,
alimentação saudável, produção agroecológica, gestão participativa, política
pública e comercialização solidária são temas dos debates.
O Projeto de Segurança Alimentar e Nutricional (PSAN) é realizado na Bahia desde
2005 com a coordenação da Cáritas Brasileira Regional NE3 (BA, SE), em parceria
com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS). Neste ano, o
PSAN ganhou um novo parceiro: a Secretaria de Desenvolvimento Social e Combate à
Pobreza do Governo do Estado da Bahia (Sedes). Com isso, o projeto adota um novo
formato e passa a atender 8,4 mil famílias, 2 mil a mais em relação ao convênio
anterior.
Agentes atuam junto às famílias acampadas e pré-assentadas no fortalecimento e
estruturação de sistemas coletivos e diversificados de produção de alimentos
para auto-abastecimento e comercialização do excedente em feiras locais. Com um
investimento de R$ 3 milhões, o projeto vai dar prioridade à nutrição de
crianças, gestantes, mães nutrizes e idosos. Além disso, busca difundir e
estimular a adoção de técnicas fundamentais para a segurança e soberania
alimentar, como o resgate de sementes crioulas e o aproveitamento de plantas
nativas, tendo em vista os princípios da agroecologia e da convivência com os
biomas. As atividades do atual projeto serão desenvolvidas em parceria com a
Federação dos Trabalhadores da Agricultura (Fetag), Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD),
Movimento Estadual de Trabalhadores Assentados, Acampados e Quilombolas (Ceta) e
Pastoral Rural de Paulo Afonso.
Abertura - A cantoria do artista de Irecê, André Marques, convidou todas
as representações envolvidas no projeto para iniciar o seminário, que contou com
a participação especial do superintendente do Instituto Nacional de Colonização
e Reforma Agrária (Incra-BA), Luiz Gurge. Ele destacou a importância do PSAN na
inserção da questão ambiental no processo de reforma agrária. Gurge lembrou que
todas as áreas a serem assentadas precisam ser licenciadas pelos órgãos
ambientais. Na oportunidade, o secretário de Desenvolvimento Social, Valmir
Assunção, afirmou que “os acampamentos e pré-assentamentos que estão no projeto
deverão ter prioridade no processo de regularização fundiária”.
Rosa Oliveira, do MST, destacou o papel do Movimento para discutir como cada
trabalhador/a pode lutar pelo direito à alimentação saudável através dos
benefícios desse projeto. O MTD esteve representado por Guapeí Veras, que falou
da importância do Seminário para o envolvimento dos trabalhadores/as no debate
de segurança alimentar. Madalena Fernandes, da Fetag, ressaltou a contribuição
do PSAN para a articulação dos movimentos de luta pela terra e acrescentou que
um dos desafios do projeto será influenciar a construção de uma política pública
que garanta a segurança alimentar e nutricional da população baiana.
Dificuldades e oportunidades - Representantes das famílias acampadas e
pré-assentadas socializaram experiências de produção e comercialização de
alimentos, viabilizadas no projeto anterior, e aproveitaram a oportunidade para
alertar sobre as dificuldades com os processos burocráticos na execução. “Teve
agente que deixou o projeto no meio do processo devido às dificuldades
financeiras”, lembrou Joaquim, que atuou como agente mobilizador na micro-região
de Senhor do Bonfim. Ele ressaltou a importância do diagnóstico participativo e
da continuidade do projeto para o desenvolvimento social das famílias acampadas
e pré-assentadas. “O diagnóstico a ser realizado este ano, comparado ao
anterior, vai ser importante para mostrar os avanços alcançados e estimular os
agentes a continuarem trabalhando”, pontuou. O assessor da Cáritas, José Carlos
Moraes, afirmou que os projetos produtivos somente serão elaborados ao término
do diagnóstico participativo. “Nós queremos saber como as famílias estão
organizadas e, a partir dessa realidade, planejar novas ações”.
Agentes mobilizadores ligados à Fetag apresentaram imagens de uma Feira de
Economia Solidária realizada no projeto anterior e falaram do beneficio dessa
ação para além da comercialização de alimentos. “Nessas feiras a gente consegue
mostrar para as pessoas que a agricultura familiar pode e deve ser feita sem
monocultura”, destacaram os agentes.
Gestão Participativa - A superintendente de inclusão e assistência
alimentar da Sedes, Ana Torquato, falou da importância de haver um espaço de
planejamento coletivo, valorizando o conhecimento popular. “Agora, mais do que
nunca, nós estamos aqui para aprender com vocês, para afinar nossa relação com
as famílias, para que a execução ocorra da melhor maneira possível”.
O assessor da Cáritas, José Carlos Moraes, mostrou-se satisfeito com o acúmulo
teórico-metodológico apresentado pelos representantes das entidades e movimentos
sociais no decorrer do seminário. Moraes enfatizou o papel dos agentes
mobilizadores em levar as questões específicas de cada família para o espaço do
grupo gestor, onde acontece uma avaliação conjunta e surgem novas deliberações
na execução. “No diagnóstico anterior, percebemos que mais de 90% das famílias
sequer coavam a água de beber. Isso explica porque havia tantas crianças
acampadas e pré-assentadas com problema de diarréia, então a primeira
providência do projeto foi comprar filtros e fazer um acompanhamento”. O
assessor explicou que o processo de capacitação com base na educação popular, na
pedagogia da alternância, vem sendo fundamental para resgatar e valorizar os
saberes e fazeres da tradição cultural dos povos do semi-árido e do cerrado.
Política Pública de Segurança Alimentar e Nutricional - O Estado da Bahia
já começa a dar os primeiros passos no processo de construção de uma Política
Pública de Segurança Alimentar e Nutricional. Está em tramitação na Assembléia
Legislativa um Projeto de Lei de Segurança Alimentar e Nutricional (Losan), que
determina a criação do Sistema Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional (Sesan).
Na Mesa Redonda sobre Soberania e Segurança Alimentar, Carlos Eduardo Leite,
presidente do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea/BA),
convocou os representantes das entidades e movimentos sociais a participarem da
audiência pública, no dia 30 de abril, na Assembléia Legislativa, para a votação
do Projeto de Lei. No final do Seminário, o grupo gestor do PSAN decidiu pela
elaboração de uma carta de apoio à aprovação da Losan, a ser entregue na
audiência. “A lei será votada no dia 6 de maio, quando também deveremos estar lá
para garantir que ela seja votada, e depois o próximo passo será divulgar essa
lei nos espaços populares”, ressaltou o presidente do Consea/BA.
Os/as participantes do seminário tocaram em pontos fundamentais para a
construção da política pública de SAN, como acesso à terra e à água; a
priorização dos acampamentos e pré-assentamentos do PSAN no processo de
licenciamento ambiental para a reforma agrária; a regulamentação da produção de
sementes transgênicas no Brasil e um maior incentivo à produção de sementes
crioulas. Outros elementos importantes são a soberania alimentar e territorial;
os conselhos municipais; a sistematização de diversas experiências populares que
podem contribuir para a elaboração da política de SAN; a importância dos
serviços públicos de assistência técnica e extensão rural para a sistematização
dos saberes e fazeres dos agricultores e agricultoras.
Planejamento com as famílias - O seminário continua com a participação
direta das famílias acampadas e pré-assentadas a serem atendidas pelo projeto.
Junto com os agentes mobilizadores e gestores do PSAN, as famílias conhecem mais
detalhes sobre a operacionalização do projeto e sairão do seminário com um
planejamento prévio das ações a serem realizadas durante o ano de 2008.
*Assessora de Comunicação da Cáritas NE 3 (BA, SE).