Declaração em defesa do limite da propriedade da terra
O Acampamento Nacional do Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo
(FNRA), em defesa do Limite da Propriedade da Terra, pela reforma agrária,
soberania territorial e Alimentar, realizado em Brasília entre os dias 14 a 17
de abril 2008, reuniu mais de duas mil pessoas entre lideranças das organizações
do Fórum, trabalhadores e trabalhadoras rurais, sem terras, agricultores e
agricultoras familiares, camponeses e camponesas e organizações
não-governamentais convidadas.
Neste Acampamento os participantes debateram e avaliaram a atualidade e a
urgência de uma reforma agrária ampla, massiva e participativa. Afirmaram que a
terra não é uma mercadoria, mas uma fonte indispensável de vida e garantia de
direitos humanos. Qualquer pessoa física ou jurídica que se apodera do direito
de expandir ilimitadamente seu poder sobre a terra, cria o poder da opressão e
se afasta do Estado democrático de direito que tem como fundamento a soberania,
a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho, entre
outros.
A Constituição Federal garante o acesso a terra e determina que só é propriedade
aquela que atende uma função social. A Constituição garante também que todos têm
direito ao meio-ambiente ecologicamente equilibrado e o Poder Público tem o
dever e a sociedade tem o direito de defendê-lo e preserva-lo para as presentes
e futuras gerações. O ambiente, a terra, não pode ser devastada, pois é um bem
de uso comum da população que deve ser desfrutado, com retidão, para o bem da
comunidade. O direito de acesso a terra, que produz alimentos saudáveis e de
qualidade, e que protege a biodiversidade, é base da soberania alimentar e
garantia de vida. Sem a terra não há direito à vida.
O aprofundamento do modelo de agricultura vigente baseada na monocultura, nas
sementes transgênicas, na produção de agrocombustíveis e no alto consumo de
agrotóxicos, incrementado com incentivo dos poderes públicos, facilita que
parcelas significativas do território brasileiro sejam adquiridas por pessoas e
empresas estrangeiras ameaçando a soberania territorial do país. Essa lógica
acentua a concentração de terra, poder e renda, destrói a biodiversidade
acelerando o desmatamento de florestas e biomas e contribui para o aquecimento
global, destrói rios, contamina e privatiza águas, viola os direitos de povos e
comunidades sobre seus territórios, invade terras indígenas, submete homens e
mulheres ao trabalho escravo, produz prioritariamente para exportação e continua
a gerar violência no campo, aprofundando as desigualdades e submetendo parcelas
significativas das populações a pobreza extrema.
Mesmo com o poder do agronegócio e das transnacionais há resistências e lutas
sendo travadas pelos movimentos sociais do campo em todo território nacional.
Contudo, é necessário adicionar novos elementos para potencializar o
enfrentamento a esta situação. Dessa forma, os participantes do Acampamento
denunciaram esse modelo e a morosidade do governo em realizar a reforma agrária
com demora nas ações do Incra para vistorias e desapropriações, abandono de
assentamentos sem as mínimas condições para a produção e de milhares de famílias
acampadas nas beiras das estradas. Por isso, reafirmaram o direito de se
mobilizar para que o Estado realize a reforma agrária e garanta os direitos dos
povos e comunidades tradicionais aos seus territórios.
Portanto, é necessário um novo ordenamento fundiário no Brasil com o
aprimoramento e aplicação dos instrumentos constitucionais existentes,
atualização dos índices de produtividade, aprovação da emenda constitucional que
expropria terras onde há trabalho escravo e adoção de novo instrumento jurídico
que limite a propriedade privada da terra.
Assim, as organizações e movimentos sociais participantes do Encontro decidiram
iniciar um processo de mobilização nacional lançando a Campanha pelo Limite da
Propriedade da Terra no Brasil. Os homens e mulheres que participaram do
Acampamento têm plena consciência de que a Campanha não é um enfrentamento de
curto prazo, mas uma batalha que deve ser travada dia a dia, de forma
incansável, estimulando o engajamento das organizações e movimentos sociais
urbanos e outros setores da sociedade civil, porque a reforma agrária, soberania
territorial e alimentar é de interesse de toda população. Para tanto, conclama
as forças democráticas da sociedade para cerrar fileiras e trabalhar juntos para
que a Campanha seja exitosa e ajude a construir o país que todos sonhamos.
ENTIDADES QUE COMPÕEM O FÓRUM NACIONAL PELA REFORMA AGRÁRIA E JUSTIÇA NO
CAMPO
CONTAG – MST – FETRAF Brasil - CUT - CPT – CÁRITAS – MMC – MPA – MAB - CMP -
CONIC – CONDSEF – Pastorais Sociais - MNDH – MTL – ABRA – ABONG - APR – ASPTA –
ANDES – Centro de Justiça Global - CESE – CIMI – CNASI – DESER – ESPLAR – FASE –
FASER – FEAB – FIAN-Brasil – FISENGE - IBASE – IBRADES – IDACO – IECLB - IFAS –
INESC – MLST – PJR – REDE BRASIL – Rede Social de Justiça - RENAP – SINPAF –
TERRA DE DIREITOS – EMPÓRIO DO CERRADO – COIABE - ABRANDH